Eutanásia??

Hoje, dei comigo a pensar sobre que futuro me é reservado nesta sociedade. A mim e a todos os demais. Afinal a “morte” é a única certeza que temos em vida. Recentemente vi partir a única amiga dos tempos de adolescência, pouco mais de seis meses depois do diagnóstico… partiu, vítima do maldito cancro.

Segundo os médicos era genético. Só por milagre não iria ser mais um número nas estatísticas… No final todos foram unânimes – familiares, amigos, médicos, enfermeiros – que ela esteve muito bem até ao fim. Que desperdício! Uma vida ainda com tanto para dar… e receber.

Senhora de muita coragem, assumiu a doença evolutiva, terminal, o inevitável e cada dia que passou, gozou-o como se fosse o último. Recusou quaisquer tratamentos que lhe retirassem esses “dias e noites” possíveis. Necessitava deles para se despedir dos seus, das coisas que amava e… deixar tudo devidamente organizado.
Não quis desperdiçar tempo, nem energia, com tratamentos que se traduziriam em mais 30, 90, 120 dias quiçá de qualidade discutível. Dizia ela: «No computo geral, ficaria a perder. Além do mais o meu prazo de validade está a acabar e não há nada a fazer!»

Jamais a palavra eutanásia foi proferida, fosse por quem fosse, em tempo algum e, estou certa de que lhe foram administrados todos os cuidados paliativos. Hoje a medicina conta com cocktails de fármacos que de certa forma previnem o tormento do sofrimento, permitindo uma maior qualidade de vida possível.
Bem sei que cada caso é um caso. Nem eu sei o que faria se estivesse no lugar dela. Creio, contudo, que gostaria de ter a mesma coragem, serenidade e energia para saborear todos os dias que me restarem! Sei também que há uma constante em todos os seres humanos – a tremenda necessidade de apoio, de ajuda, de amor e carinho.

Diz-se por aí, agora mais do que nunca, que se deve viver e morrer com dignidade. Que o “sofrimento” da pessoa em fase terminal deve ser banido, por compaixão, por humanismo!
Já passei por algumas experiências marcantes com a morte, precoce ou não, de familiares e amigos queridos. Em todos vi a dignidade possível no fim de uma vida, com maior ou menor sofrimento. Nenhum tentou suicídio, assistido ou não.

Vivemos tempos cruéis e aceitamo-los passivamente. Não é nada de novo. Também os nazis invocaram motivos humanitários, muito parecidos com os que se alegam na actualidade. Onde está a diferença? A meu ver não há, não existem diferenças. O cinismo e a hipocrisia são os mesmos.

O humanismo na nossa sociedade deveria passar pelo amor e respeito que o outro nos merece. Na ajuda, acompanhamento e apoio que o outro merece, pelo que não posso aceitar tais actos de “compaixão”. Tal como não aceito os outros “actos de compaixão” que atingem os ainda não nascidos. Afinal de contas, a pessoa, seja ela qual for, nunca se pode considerar, nem no início, nem no fim da vida, como um empecilho, porque incapaz de produzir e de colaborar, deve ser eliminada.

Hoje, dei comigo a pensar sobre que futuro me é reservado nesta sociedade.
A mim e a todos os demais… 😐

2 Comments on Eutanásia??

  1. Agradeço-te Ricardo, duplamente. As tuas palavras e o link do artigo do Mário Crespo. Ainda não o conhecia. Adorei o último dele “Façamos de conta”!
    Digam o que disserem dele, tem subido muitos pontos na minha consideração. Há que alertar as pessoas para as acções dos borderlines deste mundo.
    É evidente que não posso deixar passar este artigo sem de novo fazer uma abordagem ao assunto, por aqui e por tudo quanto é sítio.
    Reitero os meus sinceros agradecimentos, Ricardo. Abraço!

Leave a Reply

Your email address will not be published.


*